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Durante os dois primeiros séculos, as Capitanias não passavam de meros entrepostos comerciais ou engenhos produtores de açúcar, quase sem nenhuma articulação entre si. Entendiam-se diretamente com Lisboa, ignorando-se umas às outras e mal reconhecendo a existência dos Governos Gerais. Nem a mesma língua falavam: uma parcela da população usava o português, mas a maioria se comunicava nas línguas indígenas. Viviam voltadas para fora, “arranhando as praias como caranguejos”, segundo a pitoresca e sábia definição do historiador Sérgio Buarque de Holanda. A Colônia continuava um território a ser conquistado, imenso e desconhecido, alvo da cobiça internacional, sobretudo de espanhóis e franceses. A situação agravava-se ainda mais com a resistência dos índios, que se opunham tenazmente à ocupação de seus domínios.

Somente a partir do século XVIII, graças à descoberta do ouro em Minas, e, depois, dos diamantes, foi que o Brasil começou a constituir-se como país. As áreas de mineração – as Minas Gerais – tornaram-se o centro econômico do Reino Português, mais ricas do que a Metrópole, e em torno delas se foi integrando a atividade produtiva das diferentes regiões, até mesmo das mais afastadas.

Calcula-se que para Minas afluíram cerca de meio milhão de pessoas, numa das maiores migrações registradas na história. O ouro enriquecia forasteiros vindos de todas as procedências. As quantidades extraídas entre 1700 e 1800 foram superiores a tudo o que havia sido produzido anteriormente no mundo, incluindo as minas do Rei Salomão.

Nos locais da mineração começaram a surgir as primeiras vilas e cidades: Mariana, Ouro Preto, Sabará, Caeté, Congonhas, São João del-Rei, Tiradentes, Pitangui, Diamantina, Serro, Paracatú e dezenas de outras. Iniciava-se um vertiginoso processo de interiorização e urbanização, que o Brasil jamais conhecera. A nascente e urbanizada sociedade mineira diversificou-se: para atender aquela multidão, reunida de uma hora para outra em espaço físico relativamente limitado, era preciso organizar-se. Para aqui vieram juízes, militares, funcionários civis, profissionais liberais, comerciantes, trabalhadores especializados, artesãos, artista e intelectuais. Nascia assim uma classe média influente, que inexistia no resto do país, ainda dominado pela exclusiva relação senhor X escravo.

As Minas converteram-se num poderoso pólo de convergência da atividade econômica. Do Rio, que era o principal porto de saída do ouro, chegavam as mercadorias estrangeiras e os escravos africanos; São Paulo, novas levas de bandeirantes, que descobriram os minerais e julgavam-se os donos da terra; do extremo Sul, os tropeiros gaúchos, fornecedores da carne bovina e de muares usados no transporte; do Nordeste, os fazendeiros trazendo da Bahia, de Pernambuco e de outras áreas banhadas pelo São Francisco, o gado e os produtos agrícolas; de mais longe ainda, os curraleiros do Maranhão, do Piauí e do Pará, enfim, gente proveniente de todos os cantos atraída pelas riquezas do novo eldorado. Os brasileiros se encontravam pela primeira vez. Nas palavras de outro historiador, Luiz Felipe de Alencastro, da Unicamp, “Minas estava inventando o Brasil”. Ou melhor: Minas estava criando o Brasil.

Brancos, negros, índios e mestiços, apesar das profundas desigualdades sociais existentes, uniam-se na faina comum da mineração e sentiam-se integrantes de um mesmo país. O português passou a ser a língua dominante, e o território nacional se ia configurando já praticamente com as mesmas delimitações de hoje. Graças ao ouro das Minas Gerais, operou-se assim o milagre da integração brasileira, num contraste com o que se passava no lado hispânico do continente, pulverizado em dezenas de nações.

O Ciclo do Ouro, como se denominou o período da mineração, deu lugar a três fenômenos que marcariam a fundação da nacionalidade brasileira: a consolidação das Minas na condição de eixo aglutinador da Colônia, como sua expressão econômica; a Inconfidência e outras rebeliões, como sua expressão política; e, finalmente, o barroco, sua expressão artística.

Em consequência do ouro, o Brasil assumiu um papel relevante na economia mundial como nunca tivera antes e nem voltaria a ter em nenhum outro momento de sua história. As impressionantes quantidades de minerais preciosos arrancadas daqui, exportadas via Portugal, iriam influir decisivamente na consolidação da Revolução industrial na Inglaterra e na modernização do capitalismo europeu.

As sucessivas rebeliões no território mineiro (Caeté, Vila Rica, Pitangui, São Romão, Campanha, etc.), que desembocaria na Inconfidência, em 1789, sinalizavam para os brasileiros os caminhos da insubordinação e da independência. Tão forte era o sentimento de revolta contra a exploração colonial, que o Conde de Assumar, o tirânico governador da Capitania, foi levado a afirmar que, nas Minas, “a terra parece que evapora tumultos; a água exala motins”.

Nas condições especiais da mineração, determinadas pelas influência procedentes de todas as partes do Reino, e de seu superior isolamento em virtude das medidas protecionistas adotadas pela Coroa, iria surgir uma cultura nova, autônoma, que chamaria as atenções pela sua originalidade e força criativa. O barroco mineiro foi a manifestação desta cultura e teve no Aleijadinho, considerado o maior artista plástico brasileiro de todos os tempos, seu símbolo maior. Podemos dizer que a arte realmente nacional surgiu com a escola barroca de Minas, de modo particular na escultura, na pintura e na arquitetura.

O Ciclo do Ouro constituiu assim o marco inaugural da atual sociedade brasileira.

A história é um dos mais importantes patrimônios de Minas, e não somente porque estão aqui as origens do Brasil como nação.

Através dos tempos, vamos encontrar sua presença nos momentos determinantes da vida nacional, desde a resistência indígena à ocupação de seus domínios, ainda no século XVI; os primeiros achados de ouro em fins dos anos seiscentos; a opulência do século XVII, com o barroco, a Inconfidência e as outras revoltas em busca da independência; a Revolução Liberal e a reação aos desmandos do Império, no século passado; e depois, no presente, a política do café-com-leite, a campanha de Artur Bernardes em defesa de nossos minérios, a participação decisiva na Revolução de 30, o Manifesto dos Mineiros e a reconquista da democracia em 1945, a luta a favor do monopólio do petróleo, o fatídico episódio de 64, as diretas, a redemocratização e a eleição de Tancredo, colocando assim a história de Minas junto com a história do Brasil.

E… enfim,… boa viagem, pelos caminhos de Minas!

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